quarta-feira, maio 28, 2008

Para além das líquidas ações e dos imaginários horizontes; das microfonias e distorções

Lehgau-Z Qarvalho
(Escrito ao som de "Yo La Tengo – GENIUS + LOVE")

Ela possui a doce propriedade de permanecer na memória. Ponto por ponto; gosto por gosto; cheiro por cheiro. Na sucessão das ruas e das casas por onde jamais passei: portas, janelas, pavimentos; tudo, mesmo sem apresentar particular beleza ou raridade, é de se apaixonar para sempre. Até em suas nuvens, chuvas e tempestades. Tudo. O seu segredo vem do modo, do olhar, do jeito como percorre o todo feito figuras musicais que se sucedem em uma partitura em que não se pode mudar um único rabisco, sob pena de ter-se outra música que não aquela; a dela.


Minha mente não podia mais me levar de volta para casa. Eu podia sentir. Ainda recordo-me de quando saí. Sim, foi minha mente que me levou até lá. Atravessei o país para nunca mais voltar.

É um lugar onde as mulheres possuem lindos dentes, sublimes lábios, cabelos bem tratados e olham nos olhos. Lêem pensamentos; luminosos; o tempo todo. E anseiam por isso.

Eu era um Romeu, e sangrava.

Por lá se caminha em movimentos circulares por entre árvores, cimento, asfalto e areia. Assim é preciso para não molhar os pés.

Um vento gelado a soprar em meus ouvidos, disse-me sussurrante: apenas feche os olhos, filho, e não vai doer quase nada.

E a fadiga que moldava os meus desejos, tomava dos desejos a minha forma. E eu jurava estar me divertindo, quando não passava de um escravo.

Sob olhares mais atentos, dir-se-ia que os futuros não realizados são apenas ramos do passado.

Eu era um Romeu, e sangrava. Mas ninguém notava.

E foi inútil a minha viagem para visitá-la. Obrigada que está a permanecer imóvel e imutável para preservar a própria memorização, a própria identidade, a própria atmosfera – ela definhou, desfez-se, evaporou, sumiu. Desmoronou do alto de si mesma. Fez-se amortecida e quase esquecida por mim.

Atravessei o país para nunca mais voltar.

Reconheci-me. Desvendei demais sobre o que sou, sobre o que desejo ser; descobrindo o muito que não tive, nem nunca terei.

Minha mente não poderá mais me levar de volta para casa. Eu posso sentir em meu cérebro; eu posso experimentar em meus ossos; eu posso ouvir em meus pensamentos; eu posso ler em minha melancolia; eu posso ver em minhas verdades.

Foi minha mente que me levou até lá.

Eu fitava o nada, apoiado em minha xícara de café.

Eu era um Romeu, e sangrava.

2 comentários:

Linda Simone disse...

“Reconheci-me. Desvendei demais sobre o que sou, sobre o que desejo ser; descobrindo o muito que não tive, nem nunca terei.”

Sentença simplesmente LAPIDAR, é o mínimo que posso dizer! :)


“Eu era um Romeu, e sangrava. Mas ninguém notava.”

Ai, ai, ai... quanto pesar... que peninha... queria estar lá para ajudar... será que ainda dá para fazer alguma coisa? :) (Lindo, lindo, lindo isso – forte – quanto sentimento temos aqui hein?).


Se é preciso sofrer em demasia para escrever assim, magnificamente assim, apesar de “deveras” :) condoída e penalizada por você, não me leve a mal, mas eu lhe suplico: sofra, sofra, sofra... não pare jamais de sofrer! Os aficionados pelas belas letras agradecem :). Seremos todas(os) eternamente gratas(os) pelo seu sofrimento (KKKKKK)...

Beijo

Ana Lúcia disse...

Concordo com Linda (em kkk e tudo).