quarta-feira, julho 02, 2008

De dia, léticos; há noite – pródigos

Lehgau-Z Qarvalho

Tem dias, quando acordo, meus lábios estão secos. As costas doem um pouco. Não tenho vontade de sair da cama; nem de ficar nela. Penso que algum chá me fará bem. Sol também. Chuva talvez. Aguardente. Alguma leveza, maciez. Asfalto. O subterrâneo. Uma visão bem do alto. Um gerânio; rosas em azul cobalto. Nozes; amêndoas em confeito. Um epitáfio. Nem torto; nem direito. Café, pilhas, música, livros; tevê aberta, paracetamol, escapamento, freio a disco.

Tem dias, que acordo, meu espírito a voar solto e desatento por aí, por aqui, por acolá... Nunca estou onde penso estar. Quando resolvo envolver-me comigo mesmo, já parti, já ando a esmo. E corro atrás de mim; sigo meus passos, incessante. E tombo cansado outra vez; como quem quer consigo de fato ter, mas não passa de, em si, mesmo sem querer ser, mero diletante.

Tem dias, de acordo, coloco as vísceras para passear. Falo pausado, bem devagar; não digo nada. Só tudo penso. Pequeno; imenso. Incito a dúvida; permaneço pó. Das duas, uma: viro o recipiente; se estou doente, não sinto dó. Não peço ajuda. De tenho tempo. Em vento a vida. Crio uma outra. Abro em ferida; retiro o que pus. Transformo tudo; remexo um pouco; faço-me luz.

3 comentários:

Ana Lucia disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Ana Lucia disse...

Remexe, o Alquimista, novamente o caldeirão: sopa de cotidianos, aguardentes chás, confeitos de cobálticos gerânios, rosas e azuis.
Borbulha da melhor alquimia, em seu castelo à beira da avenida ou no café da esquina; à solta está o Mago.
Veja só o que ele espalha, ele e suas vísceras, quando corre atrás de si...

Linda Simone disse...

O Homem Poesia!! O Homem drama, paixão, sensibilidade, inspiração, encantamento e alegria...
AiAis para dar, emprestar e vender...
Beijo

Linda